Arte
A arte é, provavelmente, uma experiência inútil; como a paixão inútil em que cristaliza o homem. Mas inútil apenas como tragédia de que a humanidade beneficie; porque a arte é a menos trágica das ocupações, porque isso envolve uma moral objectiva.
Mas se todos os artistas da terra parassem durante umas horas, deixassem de produzir uma ideia, um quadro, uma nota de música, fazia-se um deserto extraordinário. Acreditem que os teares paravam, também, e as fábricas; as gares ficavam estranhamente vazias, as mulheres emudeciam. A arte é, no entanto, uma coisa explosiva. Houve , e há decerto em qualquer lugar da terra, pessoas que se dedicam à experiência inútil que é a arte, pessoas como Virgílio, por exemplo, e que sabem que o seu silêncio pode ser mortal.
Se os poetas se calassem subitamente e só ficasse no ar o ruído dos motores, porque até o vento se calava no fundo dos vales, penso que até as guerras se iam extinguindo, sem derrota e sem vitória, com a mansidão das coisas estéreis. O laço da ficção, que gera a expectativa, é mais forte do que todas as realidades acumuláveis. Se ele se quebra, o equilíbrio entre os seres sofre grave prejuízo.
Agustina Bessa Luis in "Dicionário Imperfeito"
"A Vontade dos Objectos"
Alfredo Luz expõe pela primeira vez na Galeria Palpura, uma mostra de trabalhos titulada “ A Vontade dos Objectos”.
Nesta exposição, os objectos ganham uma dimensão mais transcendente, ao serem os actores principais da narrativa dos quadros que Alfredo Luz apresenta, apesar das constantes metáforas e de um surrealismo descritivo subjacente nas suas obras, o qual vai beber toda a inspiração nas profundezas do pensamento humano. È precisamente aqui que ganha uma dimensão maior, quando humaniza, ou transpõe para a tela alegorias transcendentes que nos permitem sonhar numa constante experimentação surrealista e satírica de carácter mais lírico.
Com um registo muito minucioso, desenhado, a cor alcança uma importância maior, como de um filtro houvesse entre o nosso olhar e a obra, emprestando maior intensidade na sua mensagem quase sempre bastante cerebral.
A ironia e o humor, que sempre tem caracterizado a sua sensibilidade, aparecem regularmente contra um plano de fundo difuso cujo resultado final normalmente empresta uma graciosa melancolia ao seu trabalho.
Paulo Alarcão
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