Eduardo Alarcão nasceu em 1930 e faleceu em Fevereiro de 2003.
Foram 30 anos a pintar ruas, vielas, electricos, casas de Lisboa e não só, numa obra que se estende por mais de 500 quadros. Uma pintura muito personalizada e fácilmente reconhecida que encantou todos aqueles que gostam de arte, durante os anos 80 e 90. Destacaram-se ao longo deste percurso artístico, dois períodos: o naivismo e o expressionismo gestualista. Duas fases tão distintas, como se tratasse de dois artistas igualmente diferentes. O primeiro, minucioso, colorido e substancialmente distorcido, onde Lisboa é reencontrada num fado pintado, compreende os finais dos anos 70 até aos princípios dos anos 90.
O segundo período, abarca práticamente toda a década de 90 e os primeiros anos do novo século, até à sua morte. Recria um expressionismo livre, intenso e satírico, onde o trabalho de Artur Bual e mesmo do mestre Martins Correia, servem de referência na luta pela liberdade do traço, a qual passou a ser uma obsessão constante neste período. É nesta fase que cria obras de rara beleza, algumas delas com dimensões bastante generosas.
As "Marchas de Lisboa" de 1981, será porventura o ícon do primeiro período, que muitos se recordarão certamente. Contudo, do período Gestualista, as obras "Dali", "Lapão" e "As Meninas a Aprenderem", marcaram profundamente a obra deste artista.
O Quadro "As Meninas a Aprenderem", datado do ano 2000, é uma peça que nunca foi mostrada ao público em qualquer exposição e por isso, poucos foram aqueles que tiveram a ocasião de a observar. Quadro de dimensões bastante generosas e com um cromatismo muito forte, onde o azul o encarnado e o verde sobressaem naturalmente, dão corpo ao movimento sequencial que apresenta.
No ano 2004, a UNICRE, para relembrar o 1º ano do falecimento de Eduardo Alarcão, apresentou uma edição serigrafica de 50 unidades, assinadas e autenticadas.
Este quadro é pois uma peça invulgar não só no conjunto da obra do autor como também no panorama das artes portuguesas.
Por M. K. Centeno (1991)
Eduardo Alarcão recolhe, como poeta, as imagens das casas de Lisboa. Define-lhes um espaço e nesse espaço projecta a sua alma.
“A alma inaugura”, diz Gaston Bachelard. A expressão que é a obra propõe imagens, arquétipos, fundamentos para uma visão ou um discurso que será tanto mais original quanto mais resultar de um movimento de alma que se afirma.
As casas falam.
Têm janelas abertas, roupa a corar ao sol, disponibilidade interior para a mudança.
Todo o espaço flutua.
A obra de arte nasce do alargamento da experiência e da sua transposição para uma realidade outra, com um tempo e um espaço próprios, do imaginário do artista. A biografia de Eduardo Alarcão permite verificar isto mesmo. Da crueza da guerra ao intimismo da paz foi longo o caminho percorrido. A vertigem, que também pode atacar estas casas, é absorvida pela integração harmoniosa no espaço que lhes é dado: mais limiar do que limite.
A imaginação criadora liberta-nos da realidade estéril e abre-nos um espaço novo, do simbólico, forma profunda do real. Forma feliz, nesta Lisboa que a mão do artista entendeu preservar.
As casas põem a descoberto o seu modo de estar no mundo. São o seu Universo. Colorido, variado, cheio de luz por dentro. Não há temor nesse espaço, ou se o houve já foi ultrapassado. Passeia-se, pára-se, respira-se livremente.
Em cada quadro se adivinha uma força integradora. Através dela se recuperam memórias, se desenham caminhos, se conquistam as sombras de alguns sótãos.
Define-se, acima de tudo, a verticalidade do movimento interior.
E é assim que Lisboa, com as suas casas de várias cores, como diz o poeta, adquire uma outra vida: feita de um espaço de dentro (tanto quanto do espaço de fora que lhe serviu de pretexto).
A mão do pintor libertou estas casas, fez delas as medianeiras das nossas experiências, das nossas descobertas, das nossas alegrias.
A Lisboa de Eduardo Alarcão é uma cidade de espaços reencontrados.
São espaços flutuantes: neles se recorta a subtileza da luz, a intimidade da cor, da memória transfigurada e feliz.
A poética do espaço é uma poética de sonho: sublima, condensa, surpreende. A cidade transforma-se em fio condutor de uma aventura de alma: subimos ruas, viramos esquinas, descemos escadas, paramos subitamente nalgum recanto tranquilo, seguimos com os olhos o eléctrico amarelo que nos transporta a uma secreta infância descuidada, a um jardim onde o poeta é rei e o tempo não se extingue.
|